quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Treinos Fechados

Auspiciosa a diminuição do número de treinos fechados. Esta medida, por si só, exerce uma determinada pressão para que o técnico estabeleça uma equipe base e forme uma idéia de time mais sólida. Houve uma mudança sensível no espírito de Abel: existem muito menos coelhos em sua cartola. A época da escalação-supresa ruiu. A ameaça da escalação do Adriano com tamanha antecedência, caso se realize, não deixa de ser um sintoma positivo, considerando-se o retrospecto do primeiro semestre com o Abel e com o Gallo.

O advento dos treinos secretos é fruto de um processo que supervalorizou a importância dos treinadores. Com isto, ganharam o status de enxadristas. Este erro, a meu ver, empobreceu a crítica de futebol - tornando o jogo demasiadamente mecânico. As jogadas e estratégias no xadrez são formuladas por princípios matemáticos, construções algorítmicas e estão catalogadas em uma vasta bibliografia de mestres. Mas xadrez é um jogo individual - onde o enfrentamento independe de uma série de fatores que atuam no futebol. O futebol é absolutamente imprevisível. Não impera nele qualquer determinação geométrica. Existe uma profundidade que envolve o universo psicológico e físico, a habilidade individual, as condições climáticas e territoriais, a organização e disposição tática, etc., etc... - e tudo isto numa escala assombrosa, e cada jogador, às vezes, é percorrido por uma inspiração superior. Nenhuma fórmula pode antecipar o jogo, senão de maneira aproximada e rudimentar. A lógica existe em longa duração, sempre ameaçada pela perversão. Mas a perversão da lógica não é o estado natural e constante do futebol! E os treinos fechados geralmente apostam na perversão e violação do normal. Excepcionalmente, podem ser úteis. Os treinos fechados devem se restringir a ocasiões especiais. Não podem ser a regra. São simplesmente exercícios de véspera e ante-véspera de confrontos diferenciados. Eis a díficil definição, facilmente manipulável, para confrontos diferenciados: Gre-Nal, decisões mata-mata e briga por título. Treino secreto em time que freqüenta a zona do rebaixamento é uma aberração. A metáfora do xadrez só pode valer para este combate único e singular. A construção regular do time deve conter repetição, convicção e medidas firmes que informem um plano geral. A mística singular de cada componente de um jogo de futebol deve gravitar no interior deste universo newtoniano das equipes bem ajustadas. Planejamento técnico de futebol inicia numa escalação acertada - onde estão amalgamadas a disciplina ao plano e a magia inventiva dos jogadores. Portanto, é válida e legítima a redução da análise do futebol ao modelo do xadrez, mas o treinador nunca manterá o mesmo controle sobre os seus jogadores do que o enxadrista que lida com peças de madeira.
(E, ironicamente, depois de uma preparação oculta e silenciosa, decide-se por Michel ou Magal ou Ramon, que é tão inútil quanto um cone, para não parecer implicância.)

Só mais uma observação (menos teórica e abstrata)! Os jornalistas não são espiões. A bipartição radical e odiosa existente no RS é demasiadamente cruel neste aspecto. Imagine você, vestindo a camisa do Internacional, indo a um banco, um supermercado, uma loja de roupas, etc.: você mantém a mesma desconfiança constante em relação ao seu atendimento? Isto é paranóico! A imprensa exerce um trabalho essencial e merece acompanhar os trabalhos diários - são os olhos de muitos torcedores (não estou dizendo que ela é objetiva e imparcial! e mais tarde escreverei sobre este assunto...). Assim como a presença física da torcida nos treinos incentivando também é importante - e os jogadores sentindo esta cumplicidade

Nenhum comentário: